O livro didático e suas ideologias e preconceitos
Por: Ionara Carneiro Alves
O livro didático surgiu como um complemento aos grandes livros clássicos. Embora ele pareça exercer um papel insignificante na grande maquinaria educacional da qual faz parte, ele na verdade revela ser de importância estratégica para a existência e funcionamento do sistema como um todo. De uso restrito ao âmbito escolar, reproduz valores da sociedade, divulgando as ciências e a filosofia e, da forma como vem sendo utilizado, reforça a aprendizagem centrada na memorização.
No Brasil os livros didáticos, com raras exceções, foram sempre considerados de qualidade duvidosa e não cumprem o seu papel de apoiar o processo educativo.
É bem verdade que atualmente a qualidade dos livros didáticos tem melhorado bastante mas, por outro lado, temos que reconhecer que ele ainda possui presença marcante na sala de aula e, muitas vezes, serve até mesmo como substituto do professor quando na verdade ele deveria ser mais um elemento de apoio ao trabalho docente. Foi essa constatação a grande motivação para a discussão aqui proposta.
O conteúdo do livro didático vem sendo criticado desde 1940, porém esse processo se intensifica a partir da segunda metade da década de setenta e assume proporções ainda maiores nos últimos dez anos. (Freitag,1997).
De acordo com Oliveira (1984), o livro didático é um meio a serviço de um processo geral de transmissão de modos de pensar e agir, modos esses que expressam objetivamente a visão de mundo de um grupo ou de uma classe.
Para Freitag (1997), o livro didático é o veículo de transmissão dos conhecimentos dosados e da ideologia da burguesia, e visa unicamente a classe operária. Assim, o livro didático contribui para a reprodução de uma classe operária conformista e passiva. Também Faria (2000), diz ser o livro didático um dos veículos utilizados pela escola para a transmissão da ideologia burguesa.
O livro didático possui desde erros simples, como os de ortografia e de concordância, até os mais graves, como os de conceituação e informação.
No Jornal Diário de São Paulo de outubro de 2005, foi publicada uma matéria que falava da revolta de pais e professores em relação a erros de português contidos em livro didático. De acordo com a matéria o livro em questão possuía palavras escritas erradas, tais como: “sugeira”, “idéa” e “fabrica”.
É realmente lamentável saber que publicações contendo erros grosseiros como esses chegam às escolas.
A esse respeito Lajolo, comenta:
Um livro didático não pode conter informações incorretas, porque estas levariam seus usuários a operarem com significados inadequados para a vida que vivem. Um livro não pode, por exemplo, ensinar que 2 + 2 = 3 , que o Brasil se divide em 16 estados, nem grafar casa com z; tampouco pode afirmar que a Inconfidência Mineira pretendia a Abolição da Escravatura ou ainda que as cegonhas trazem as crianças (Lajolo, 1996).
No seu artigo, “Graves erros de conceito em livros didáticos de ciência”, o professor da USP Nélio Bizzo, revela vários erros que foram encontrados em livros didáticos. De acordo com Bizzo (1996), a definição de animal vertebrado está errada na maioria dos livros didáticos, assim como a de fotossíntese e a de respiração celular.
Tais revelações são muitos preocupantes se pensarmos que o livro didático pode ser, muitas vezes, o único livro com o qual a criança tem contato e que boa parte do que é ensinado em sala de aula é repassado pelas crianças a suas comunidades.
Diante de tantos erros e equívocos encontrados nos livros didáticos, Molina diz:
É duvidoso, que os textos colocados à disposição dos alunos facilitem um estudo independente ou mesmo conduzam o leitor, futuramente, à independência como aprendiz. É igualmente duvidoso, ainda, que os alunos aprendam sequer o conteúdo apresentado em muitos livros didáticos existentes no mercado (Molina, 1988).
Não bastasse os erros ortográficos, de concordância, de conceituação e a transmissão da ideologia burguesa, o livro didático é ainda propagador de preconceitos, estereótipos e discriminação. Ele ignora, silencia, marginaliza e discrimina muitos dos personagens que compõem a nossa sociedade.
Os índios, por exemplo, só aparecem nos livros didáticos quando estes estão se referindo ao dia 19 de abril (“Dia do Índio”) e mesmo assim, sempre de modo simplório e ridicularizado.
A esse respeito comenta Deiró:
As narrações sobre o índio e seu modo de vida são freqüentes nos textos didáticos e apresentam um caráter impessoal, aparentemente sem julgamento de valor. São exposições sempre com um tom distante procurando sempre evita qualquer polêmica a respeito do relacionamento entre brancos e índios, no entanto, as descrições trazem elementos que procuram demonstrar a inferioridade do índio e de sua cultura (Deiró, 2005).
O negro é outro personagem folclorizado pelo livro didático. Ele é sempre retratado como sendo o escravo que veio da África para trabalhar nas lavouras do Brasil. A abolição da escravatura por sua vez, é representada no livro didático como sendo uma grande festa onde a Princesa Isabel assinou a grande lei da abolição.
Assim como o negro e o índio também a mulher em geral é discriminada no livro didático. Sua função é ser mãe e cuidar da casa. A mulher não aparece como um ser humano igual ao homem que trabalha e contribui para o progresso da sociedade em que vive.
Para Deiró (2005), a mãe, e a mulher no geral, são citadas, no livro didático, como donas-de-casa e cozinheiras por excelência. A mulher, que cuida da cozinha e que tem seu papel social reduzido ao de esposa, mãe e dona-de-casa, é apresentada fatalmente como desinformada, ignorante, etc.
Mas o que fazer então com livros repletos de erros e equívocos?! Jogá-los todos fora ou procurar a melhor maneira de trabalhar com eles?
Freitag (1997), argumenta que se o ensino com o livro didático, no Brasil, já é sofrível, sem ele seria muito pior. E ela vai ainda mais longe ao afirmar que sem o livro didático o ensino Brasileiro desmoronaria, pois, é ele que estabelece o roteiro de trabalho do ano letivo, dosa as atividades diárias do professor na sala de aula e ocupa os alunos.
Se o ensino no Brasil desmoronaria ou não, sem o livro didático, essa é uma outra questão. O fato é que o livro didático com todos os seus erros e equívocos é uma realidade que temos que encarar. Não dá para ficar apenas criticando e colocando defeitos nele, pois, isso não irá resolver nada.
Para Freitag (1997), o ponto nevrálgico do livro didático na escola é o professor.
O professor é quem escolhe e faz uso do livro didático em sala de aula. É a sua competência, o seu discernimento e a sua consciência crítica que fará a diferença entre um bom ou mau uso do material didático disponível. Até porque o melhor dos livros didáticos não pode competir com o professor, é ele, mais do que qualquer livro, que sabe quais os aspectos do conhecimento falam mais de perto a seus alunos, que modalidades de exercício e que tipos de atividade respondem mais fundo em sua classe.
Nesse sentido, Lajolo comenta:
Nenhum livro didático, por melhor que seja, pode ser utilizado sem adaptações. Como todo e qualquer livro, o didático também propicia diferentes leituras para diferentes leitores, e é em função da liderança que tem na utilização coletiva do livro didático que o professor precisa preparar com cuidado os modos de utilização dele, isto é, as atividades escolares através das quais um livro didático vai se fazer presente no curso em que foi adotado (Lajolo, 1996).
O problema é que a desinformação, o comodismo e o conformismo da grande maioria dos professores, do nosso país, fortalecem a onipotência do livro didático. Até porque trabalhar em classe com um livro inadequado exige excepcional firmeza e conhecimento do professor. Serão vários os momentos e as situações em que o professor precisará dizer à classe que o livro merece ressalvas, que o que o livro diz não está certo. E essa, com certeza, não é uma tarefa fácil.
Daí a necessidade de uma boa formação para os nosso professores. Mas para que o professor possa exercer um papel inovador na escola é preciso muito mais que uma simples formação superior. Muita coisa, dentro e fora da escola, precisa mudar.
Para que possamos ter professores competentes, críticos e inovadores dentro das salas de aulas de nossas escolas, torna-se necessário investir na formação permanente desses profissionais, dando-lhes chances contínuas de renovação e atualização.
Precisamos nos conscientizar disso, porque não existe livro que seja à prova de professor: o pior livro pode ficar bom na sala de um bom professor e o melhor livro desanda na sala de um mau professor. Pois o melhor livro, repita-se mais uma vez, é apenas um livro, instrumento auxiliar da aprendizagem.
Referências:
BIZZO, Nélio. Graves Erros de Conceito em Livros Didáticos de Ciência. Ciência Hoje. São Paulo. Vol. 21 Nº 121 Junho de 1996. Disponível em:http://www.usp.br/jorusp/arquivo/1997/jusp398/manchet/rep_int/univers3.html. Acesso em: 30 nov. 2006.
DEIRÓ, Maria de Lourdes Chagas. As Belas Mentiras: a ideologia subjacente aos textos didáticos. 13ª ed. São Paulo: Centauro, 2005.
FARIA, Ana Lucia G. de. Ideologia no Livro Didático. 13ª ed. São Paulo: Cortez, 2000.
FREITAG, Bárbara (org.). O livro didático em Questão. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 1997.
LAJOLO, Marisa. Livro Didático: um (quase) um manual de usuário. Disponível em:< hl="pt-BR&lr=" q="cache:ZOzBMJYTCbgJ:www.inep.gov.br/download/cibec/1996/periodicos/em_aberto_69.doc+Erros+ortogr%C3%A1ficos+do+livro+did%C3%A1tico">.Acesso em: 30 nov. 2006.
MOLINA, Olga. Quem Engana Quem: professor x livro didático. 2ª ed. Campinas: Papirus, 1988.
OLIVEIRA, João Batista (org.). A Política do Livro Didático. Campinas: Sammus, 1984.

3 Comments:
Io, parabéns pelo artigo e produção do fanzine, vc. mostrou muita competência e determinação.Até a próxima, beijos,Claudia.
ótimo, ficou bem legal.
Olá,
O texto da Lajolo está em:
http://www.rbep.inep.gov.br/index.php/emaberto/article/viewFile/1033/935
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